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Personalidades do Espiritismo

Foto de Allan Kardec

Allan Kardec

O educador Hippolyte Léon Denizard Rivail

Antes de ser conhecido como Allan Kardec, o professor Hippolyte Léon Denizard Rivail (Lyon, 3 de outubro de 1804 – Paris, 31 de março de 1869) já tinha nome respeitado na França como mestre da pedagogia moderna. Seu nome aparecia em importantes obras biobibliográficas.

Durante trinta anos, de 1819 a 1850, muitas vezes superando incompreensões e reveses, Rivail dedicou-se de corpo e alma a instruir e educar um sem-número de crianças e jovens parisienses. Seguia o método de Pestalozzi, com modificações e práticas pedagógicas que ele mesmo criou. Algumas delas só seriam retomadas no século XX, por grandes reformadores do ensino.

Sua formação se deu no Instituto de Yverdon, na Suíça. Segundo o biógrafo Henri Sausse, "foi nessa escola que se lhe desenvolveram as ideias que mais tarde deviam fazer dele um observador atento e meticuloso, um pensador prudente e profundo". Por isso, o biógrafo Jean Vartier afirmou que "Pestalozzi pode ser considerado como o pai espiritual de Rivail".

Em sua carreira de educador, Rivail exercitou a paciência, a abnegação, o trabalho, a observação, a força de vontade e o amor às boas causas. Foi o preparo para a missão que o aguardava. Casou-se em 1832, e quase todas as suas realizações posteriores nasceram ou se fortaleceram nas conversas com a esposa, cuja compreensão foi para ele um refúgio nos momentos mais críticos.

O encontro com as "mesas girantes"

Rivail era, nas palavras da escritora inglesa Anna Blackwell, que o conheceu de perto, um espírito "ativo e tenaz", "precavido até quase a frieza, céptico por natureza e por educação". Aos 24 anos, chegou a escrever que quem estudasse as ciências "rirá, então, da credulidade supersticiosa dos ignorantes".

Foi como racionalista, sem nenhum misticismo, que ele se pôs a examinar os fenômenos das "mesas falantes", que então agitavam Paris: "Não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê". Como observou o biógrafo André Moreil, "entre Rivail, o educador, e Allan Kardec não há diferença alguma, nem de método, nem de rigor científico".

Em maio de 1855, convidado a uma reunião na casa da Sra. Plainemaison, viu pela primeira vez mesas que giravam, saltavam e corriam "em condições tais que não deixavam margem a qualquer dúvida". Viu também as respostas inteligentes que a mesa dava por meio de pancadas. "Entrevi naquelas aparentes futilidades", diria ele mais tarde, "qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim investigar a fundo."

Continuou os estudos na casa da família Baudin, onde a jovem médium Caroline Baudin servia de intérprete aos Espíritos. Rivail passou a levar às sessões perguntas sobre os mais diversos problemas, e os Espíritos respondiam "com precisão, profundeza e lógica". Observando, comparando e julgando os fatos, concluiu que os Espíritos dos que já tinham vivido na Terra eram a causa inteligente daqueles efeitos. Dali tirou as leis que regem esses fenômenos e toda uma doutrina de esperança, consolação e solidariedade universal.

O nascimento de Allan Kardec

"Mais tarde", escreveu ele, "quando vi que aquilo constituía um todo e ganhava as proporções de uma doutrina, tive a ideia de publicar os ensinos recebidos, para instrução de toda a gente."

Em 18 de abril de 1857, foi publicado O Livro dos Espíritos, com 501 perguntas e respostas. Na hora de assinar a obra, o professor ficou em dúvida. Seu nome era muito conhecido no meio científico, e usá-lo poderia gerar confusão e prejudicar o empreendimento. Adotou então o nome Allan Kardec, que, segundo lhe revelou o Espírito protetor, ele havia usado no tempo dos druidas, nas Gálias.

O pseudônimo foi depois motivo de zombaria dos adversários. Em 1875, no chamado "Processo dos Espíritas", um juiz chegou a interrogar de forma desrespeitosa a viúva de Kardec, já de cabelos brancos. Mas o que os acusadores esqueciam é que, ao adotar o pseudônimo, o professor deu um testemunho de fé e também de humildade, pois seu nome civil era dos mais ilustres da França.

A Terceira Revelação chegava na hora certa. O século XIX vivia a filosofia do desespero: o materialismo e o pessimismo reduziam a vida a simples matéria, que a morte extinguiria. No meio desse caos, a nova Doutrina surgia como a claridade de um novo dia.

A Codificação Espírita

A obra de Kardec está reunida no chamado Pentateuco Kardequiano:

  1. O Livro dos Espíritos (1857)
  2. O Livro dos Médiuns (1861)
  3. O Evangelho segundo o Espiritismo (1864)
  4. O Céu e o Inferno (1865)
  5. A Gênese (1868)

Completam o conjunto O que é o Espiritismo, Obras Póstumas e outros escritos.

A Revista Espírita

O sucesso de O Livro dos Espíritos superou todas as expectativas. Kardec passou a receber relatos de fatos espíritas, cartas com perguntas e visitas de pessoas em busca de esclarecimento. Enquanto os Estados Unidos tinham dezessete jornais sobre o assunto, a França não tinha nenhum. Para responder a muitos ao mesmo tempo, ele decidiu criar uma publicação periódica.

Mesmo preso a dois empregos e sem apoio de nenhum capitalista, consultou os Espíritos, que o incentivaram a perseverar. Em 1º de janeiro de 1858, lançou a Revue Spirite, sem um único assinante e com recursos próprios. "Não tive de que me arrepender", disse mais tarde, "porquanto o êxito ultrapassou a minha expectativa." Em menos de um ano, a revista circulava em todos os continentes. Kardec a dirigiu sozinho por mais de onze anos, com uma regra clara: "Discutiremos, mas não disputaremos".

A Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas

Em 1º de abril de 1858, Kardec fundou em Paris a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, a primeira sociedade espírita legalmente constituída. Até então, as reuniões aconteciam em sua própria casa, na rua dos Mártires, mas o espaço ficou pequeno.

A Sociedade não era um espetáculo de curiosidade nem uma seita: seu programa era instruir. "Reunimo-nos para o estudo e a observação, e não para transformar nossas reuniões em arena de controvérsias", escrevia Kardec. Dela participavam magistrados, médicos, engenheiros, artistas, operários e até nobres: "O grão-senhor e o artesão aí se dão as mãos fraternalmente". Seu presidente espiritual era o Espírito de São Luís.

Kardec tentou várias vezes deixar a presidência, para que todos tivessem sua parte nos cargos, mas foi sempre reeleito por unanimidade. Presidiu a Sociedade até desencarnar.

Com o crescimento do Espiritismo, chegava a receber de 1.200 a 1.500 visitantes por ano. Trabalhava "de manhã à noite e, muitas vezes, pela madrugada adentro". Em 1869, cerca de dez anos depois de ter previsto esse prazo, Kardec desencarnou, deixando concluída a Codificação do Espiritismo.

A Sociedade superou calúnias e maledicências de toda sorte e serviu de modelo para inúmeras associações espíritas criadas na França e no mundo, inclusive no Brasil.

"Não costumo aceitar ideia alguma sem lhe conhecer o como e o porquê."
— Allan Kardec


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